Publicado 03/04/2019 10:50:27

Tabuleiro de Reis

Já começo deixando bem claro que não me estendo muito. Portanto, você que tem o costume de ler no celular e sempre solta aquela piadinha nos grupos do aplicativo verdinho “vou esperar virar filme”, pode começar a ler sem medo de ser feliz.

Pois bem. Ontem, numa roda de conversa, ouvi que “para ser médico, para estudar Medicina é necessário comprometimento”. Daí, você que já me conhece, sabe que eu retruquei. “Não. Eu acho que para ser qualquer profissional é preciso ter comprometimento; para estudar qualquer profissão, é necessário se comprometer.” Mas a tal pessoa (cacetas!) fez questão de insistir: “Entendo, entendo. Mas o médico trabalha com vidas, não é? Um cirurgião, por exemplo, ele precisa ter muito comprometimento.”.

Comprometimento… comprometimento…

Cocei a cabeça, pensei por milésimos de segundo e decidi argumentar uma vez mais, só aquela vezinha, sem ser rude ou coisa parecida: “Tudo bem, mas e se na hora da cirurgia o médico cirurgião buscar o auxílio de seu colega de trabalho, o enfermeiro, e este não estiver lá? De que adianta seu ‘comprometimento’?”. Meu interlocutor não se fez de rogado e  também buscava as melhores palavras para não parecer preconceituoso – apesar de seu discurso estar carregado. “Eu sei, mas acho importante o comprometimento dos que buscam fazer a Medicina seu ofício”, uma frase muito subjetiva, sem argumentos sólidos, para encerrar de vez o papo, graças a Deus.

Ora, eu também! Entretanto, não podia concordar, muito menos ficar quieto diante de tal assertiva. Não sei se me compreendem, mas tento explicar-me, ainda que vulgarmente.

O Doutor pode ter mil pós-graduações à sua esquerda, dez mil mestrados à sua direita, mas se o motorista da ambulância, o diretor do Hospital, o enfermeiro, o recepcionista, o radiologista, o eletricista – e todos os demais istas – se algum deles não tiver comprometimento, tu não serás atendido.

Antes de mim Bauman já dizia o quão somos responsáveis pelos outros, estando atentos a isso ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra. Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer tem impacto na vida de todos, e tudo o que as pessoas fazem ou se privam de fazer pode afetar de alguma maneira nossas vidas”. Não é o médico, por “trabalhar com vidas”, que é obrigado a ser zeloso e comprometido, é a sociedade, somos todos nós, cada um no seu quadrado. Ninguém tem uma importância maior do que os outros por aquilo que faz, somos todos parte de um mesmo organismo, de um conjunto de engrenagens.

Acho que o problema, na verdade, é se julgar superior, mais necessário que os demais. Aí é que está a raiz, o gérmen de toda essa bagunça que já conhecemos, de cor e salteado. Ora, o arco-íris com suas sete cores… perde uma pra ver: é tudo, menos um arco-íris. O polegar com toda a sua pompa de ter sido o responsável pela evolução da humanidade e o coitado do mindinho, pequenininho lá no canto… perca-o pra ver se não lhe fará falta – mesmo que você tivesse dois dedos opositores.

Ninguém é mais importante do que ninguém, nesta terra de meu Deus, cara pálida. Não é só o médico que lida com vidas, somos todos nós e é ingênuo ou pretensioso pensar diferente. Somos todos doutores naquilo que fazemos e devemos valorizar e sermos valorizados por isso. Façamos o nosso melhor, sempre. Até porque, meus filhinhos, não esqueçam jamais  disto: ao fim do jogo, rei e peão voltam para a mesma caixa.

George dos Santos Pacheco

georgespacheco@outlook.com

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