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Publicado 13/05/2018 18:48:29

Culpa do Januário

Acontece que o Januário cometeu a descortesia de falecer. Bateu a caçoleta, abotoou o paletó, foi pra cidade dos pés juntos. Morreu assim, de repente, de uma hora pra outra. Januário tinha lá seus quarenta anos, o rosto marcado de vincos e queimado pelo sol. Parece que passou mal na lavoura, qualquer piripaque desses no coração, quando as veias entopem de tanto comer chouriço frito na gordura de porco como tira-gosto pra cachaça. Não tinha filhos, mas deixara a esposa, cerca de uns dez anos mais nova. Dona Carlota era jovem, esbelta, de olhos meigos e submissos, e certamente encontraria um cafajeste e aproveitador, que a engabelasse com palavras doces e gentis somente para por a mão em suas carnes, além das posses de meu amigo. Culpa do Januário, apenas dele. Por que morrer justo agora?

A gente se conhecia desde moleque e logo que fiquei sabendo da notícia, pus-me a caminho de sua casa, pro lados do Arraial São Geraldo, onde seria velado. Naquela época, o transporte não era lá essas coisas, em Friburgo e quem tivesse um pangaré para lhe servir, que desse graças ao bom Deus pela bênção. Não era o meu caso, mas nem por isso eu deixaria de agradecer. Eu estava vivo, meu amigo não. Pus um capote, um par de botas grossas e fui caminhando mesmo, apesar da considerável distância entre o Catarcione o destino. O que eu temia, na verdade, era que toda aquela chuva que se anunciava nas nuvens carregadas resolvesse cair justamente enquanto eu ainda estava em trânsito. Mas eu precisava ir.

Estalei os beiços, incomodado; as gotas começavam a cair pesadas, o vento gelava os ossos. Ia chover, muito. Os passos, cada vez mais apressados, eram impulsionados pelos clarões dos relâmpagos que cruzavam o céu, tão belos e tão assustadores ao mesmo tempo. Deus, que não chova. Vai ficar um lameiro danado, e eu aqui, sem poder chegar nem ao velório, nem voltar pra minha casa. Entretanto, talvez por um milagre, acaso ou seja lá o que for, subitamente surgiu um caminhão, que buzinou e parou logo à frente, guinchando os freios. Era Luís, amigo em comum que viera ao centro buscar o caixão de Januário. Assistência funerária é coisa desses tempos, em que muita gente morre e pouca gente se importa.

Com a boleia cheia com outros amigos, sobrava-me apenas a carroceria, onde se encontrava justamente a derradeira morada do morto. Subi sem muita cerimônia, sentei-me a um canto e Luís arrancou logo em seguida. A chuva voltou a engrossar, e então me ocorreu uma ideia brilhante (ou nem tanto assim): para que eu chegasse minimamente seco, a única alternativa era me abrigar dentro do caixão. E assim se fez.

Suspirei desconsolado, abri-o cuidadosamente e deitei-me. O espaço era apertadíssimo: em cinco minutos minhas mãos começaram a adormecer sobre o ventre. As gotas estalavam no tampo e eu respirava com certa dificuldade. De todo modo, era bem melhor do que ficar na chuva. Com sorte, eu até cochilaria. Quem sabe?

Dali a pouco, o caminhão parou novamente e a carroceria deu um sacolejo. A voz fina de um rapazote agradeceu ofegante.

– Aproveita e faz companhia pra esse aí! – retribuiu Luís, simpático, engatando a primeira marcha para colocar-nos em movimento outra vez.

E silêncio, o garoto calou-se de uma vez por todas. O motorista arrancou e acelerou mais forte pela estrada esburacada, sacudindo-nos morro acima como dois bonecos de pano. Deus, que cheguemos logo, ou haverá dois velórios a serem realizados hoje. O ar estava abafado, minhas pernas começavam a adormecer e eu a me arrepender dessa ideia idiota de deitar vivo num caixão. Adivinha de quem é a culpa!

O som das gotas no tampo começaram a ficar escassas e eu decidi que, definitivamente, já era hora de sair dali. Abri o caixão de uma só vez, aspirando com vigor e satisfação o ar fresco.

– Já parou de chover, amigo? – dirigi-me ofegante ao outro caroneiro.

O garoto arregalou os olhos e escancarou a boca num grito mudo, pulando da carroceria com o veículo em movimento mesmo. Virando um monte de cambalhotas no chão lamacento, sumiu morro a baixo numa carreira desesperada.

Nunca mais o vi. Se ele quebrou os dentes na queda, se perdeu o medo da chuva, não sei. Não sei. Talvez tenha ralado as mãos e joelhos. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: nunca mais pegou caronas na estrada e deve ter horror a velórios. Culpa do Januário.

George dos Santos Pacheco

georgespacheco@outlook.com

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