Publicado 09/01/2019 12:44:08

Paisagem extinta da Mata Atlântica é recuperada em Cachoeiras de Macacu

O raríssimo muriqui-do-sul, um dos primatas mais ameaçados do planeta

Um céu povoado por garças, patos selvagens, periquitos multicores e mais de três dezenas de espécies de aves cobre o espelho d’água de lagoas rasas e alagados. É um lugar habitado por antas, lontras e jacarés, cenário da exuberância da Mata Atlântica das baixadas litorâneas do Rio de Janeiro que havia sido extinto e voltou à vida na Reserva Ecológica de Guapiaçu (Regua), em Cachoeiras de Macacu. Para resgatar essa fina flor do passado, lá se experimenta restauração com base em ciência, gestão do setor privado e parcerias com empresas, poder público e centros de pesquisa.

Os alagados são emoldurados pelas montanhas da Serra do Mar, numa área contígua ao Parque Estadual dos Três Picos. Protegidas dos caçadores pelos guardas da Regua, as florestas voltaram a ser habitadas por alguns dos animais mais raros do Terra. Entre eles, o muriqui-do-sul, o maior dos macacos das Américas, e o macuco, uma ave terrestre de meio metro de altura parente do falecido moa da Nova Zelândia, um dos símbolos mais conhecidos da extinção mundial.

As florestas da Regua protegem uma riqueza que impressiona. Isso só foi possível porque os proprietários preservam e restauram a mata e mantém guarda-parques muito comprometidos com a conservação. Eles realmente botam os caçadores para correr. Seguros, os animais estão voltando e todo o ambiente é revigorado.

Lar de sobreviventes

O raríssimo muriqui-do-sul, um dos primatas mais ameaçados do planeta, flagrado pela primeira vez com câmeras no alto das árvores no estado do Rio. Os Macacos Muriquis são dóceis, sociáveis e magníficos, símbolos da floresta luxuriante.

O macuco tem uma voz muito característica, praticamente não voa e é parente distante do extinto moa, da Nova Zelândia, um dos primeiros animais extintos pelo homem. 

As lagoas rasas cercadas pela floresta eram comuns em todas as áreas baixas da Mata Atlântica, mas foram aterradas e destruídas.

Os catetos, espécie de porco do mato, também quase foram extintos pelo homem. É muito raro encontrar árvores de espécies que foram e são bastante retiradas, como cedros, jequitibás e louros, com o porte que têm lá.

As antas começaram a ser reintroduzidas no parque 2017, após passarem mais de um século extintas no estado do Rio — a última anta selvagem fora avistada em 1914.

A anta chega a pesar 300 quilos e é o maior mamífero terrestre do Brasil. Presa fácil de caçadores e vítima da perda de habitat, ela precisou de ajuda do homem para voltar à Mata Atlântica. As cinco antas são monitoradas por coleiras com GPS que enviam dados por email para pesquisadores da Rede Refauna, um projeto do Instituto Federal do Rio de Janeiro, da UFRJ e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

A Regua é também o exemplo mais bem-sucedido no estado de restauração de Mata Atlântica promovido pela iniciativa privada. Ela é hoje uma ONG que atua em parceria com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), universidades e tem boa parte de sua área dentro de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Capta patrocínios de fundos internacionais de conservação e empresas. O mais recente deles foi firmado com a SOS Mata Atlântica e a britânica The Body Shop, que pertence à gigante brasileira de cosméticos Natura.

Um dos serviços ambientais prestados pela Regua é a conservação das nascentes da alta bacia do Rio Guapiaçu, da qual depende o abastecimento de três milhões de habitantes da Região Metropolitana.

Por O Globo.

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