Literatura em Foco

com George dos Santos Pacheco

Oração Subordinada

Um "erre" apenas bastapra tornar donzela e casta,e somente preciso um "tê"para o puro corromper!Sabemos que não é lá muito santo,oh, corretor, que vela por nós.Com seu magnífico manto,não nos deixe em maus lençóis!Que assim cerveja!*Que assim seja!George dos Santos Pachecogeorgespacheco@outlook.com

Mantra

  Pro passo tropeçadoPro chinelo arrebentadoPro sorriso amareladoPro salário atrasadoPro quarto bagunçadoPro te amo gaguejadoPro olhar desconfiadoPro preconceito veladoPro modelo ultrapassadoPro verso não rimadoPro copo quebradoPro chifre tomadoPro bolso furadoPro grito abafadoPro caso pensadoPro assim e assadoPro mal interpretadoPro café requentadoPro leite derramadoPro vôo atrasadoPro bife aceboladoPro beijo recusadoPro canto desafinadoPro dente quebradoPro nunca imaginadoPro zíper queimadoPro frio danadoFODA-SEGeorge dos Santos Pachecogeorgespacheco@outlook.com

A invenção de

  Abra(o) os olhos, agora.Que será, então?Já não sou eu, é meu medo,timoneiro da embarcação?Abrigado em meu peito,este mar impetuoso e não...Será mero devaneio?(O monstro medonho)minha própria invenção?Feche(o) os olhos, agora:ao passadiço, sem demora.Busco em mim a derrota,mãos firmes ao timão. Não estarei sujeito ao vento,a eles não serei subordinado.Do medo não serei cativo,está pois, decretado!O monstro, o vento, o medo,ali eu sinto, ali eu vejo.São mero devaneio,não passam de ilusão.São motes de querelas,queixas tristes da guarnição.Importa mais minhas velas,mãos firmes ao timão,pois sou eu...

Ainda que se queira

  Não me venha agoracom isto ou aquilo.O tempo não para lá fora,ainda que se queira.Ainda que se quis.A metáfora é pura vaidade,bengala velha e surrada.Tirando isto ou aquilo,não sobra mais nada.Ainda que se queira,ainda que se quis.O que se quer dizer,quando não se diz?George dos Santos Pachecogeorgespacheco@outlook.com

A Debochada

A lua, em um sorriso,escarnece de mim!Desdenha dos insonesbeberrõesmendigosputasPuta que pariu!A lua escarnece,e olhos se cobrem em vão...É muito cedo pra acordar,tarde demais para dormir!E ela sorri!Sorri,sorri...George dos Santos Pachecogeorgespacheco@outlook.com

Marketing reverso

  Essa fila que não anda,Eu não aguento mais!Pareço dar um passo pra frente, e dois passos para trás! Comprei meia dúzia de coisas, verduras , frutas , nada de mais. Deu, no máximo, três sacolas - e quase cem reais! "É dinheiro, patrão?" - perguntou-me cabisbaixa. Divida em três, no cartão... - respondi à moça do caixa. Peguei um encarte na saída:"carne e cerveja e carvão..."Olha só, que maravilha: amanhã tem promoção! George dos Santos Pachecogeorgespacheco@outlook.com

Notícias Urgentes

Interrompemos nossa programação,para notícias urgentes e cruas: eivadas de grande emoção, As poesias tomaram as ruas! Metáforas com os rostos cobertos, versos em riste nas mãos, desferem golpes nos muros, disparos ao coração! O delegado, de modo algum, se meterá, disse num bocejo: “A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos”. Recomenda-se a todos, abrigarem-se fora de si.Estão nas ruas, os versos: as poesias escaparam de Mim! George dos Santos Pacheco georgespacheco@outlook.com

O Oráculo

  Oh, grande Oráculo!Eterno e assaz efêmero,célebre, magnífico e imáculo.Revela-me, guru esplêndido!Prostro-me ingênuo e sorumbático,fitando-te com o rosto lívido:não tens alma, e isso é trágico,teu crédito, porém, é vívido.Ora, ora, Oráculo...Quem te elegeu, num gesto plácido,para declamar neste espetáculo,como se teu conselho fosse válido?Sendo verdade, partiria lépido,e ignorando o equívoco,defender-te-ia intrépido!(ainda que soasse frívolo)Oráculo dos oráculos!Se te invoco, assim, poético,caprichando no vernáculo,não clamo a mim o arquétipo.Tu, porém, és um...

Como Neandertais

Não quero lhe falar,meu grande amor...(Não quero e não vou)Estou com pressa, muito ocupado,e não posso ajudar com algum trocado.   Você já deve estar sabendo,que a bala está comendo- e não é nenhum doce ou rebuçado.É tiro, porrada e bomba, moço,pra tudo quanto é lado!   Por isso, cuidado, meu irmão!Lembre-se: você também é mortal.   Quando Papai do Céu voltar,aí que eu quero ver!O que é que você vai falar?O que vai dizer?     Eu sei, eu sei... talvez a situação mudasse,se em vez de agredir,eu oferecesse a outra face. Não! Não adianta agora ficar fingindo,tirar onda de bacana,...

Anúncio poético

Por apenas metade da leitura,você tem versos da mais pura qualidade,(que lhe caem muito bem!) Se está curto, a gente e s t i c a,se está longo, faz-se bainha. Sua satisfação é nossa garantia!Em outras rimas,outros livros,não adianta procurar:verso vistoso assim,somente aqui encontrará. Encomendas? Aceitamos!A domicílio (sem crase) entregamos.Digo um verso bem bonito,Pra suspender o ócio: Vem pra cá, cliente amigo,pois comigo tem negócio! George dos Santos Pachecogeorgespacheco@outlook.com

Interrogatório

InterrogatórioA sala escura, as mãos presas.Ele me inquiria:Quem é você? Onde esteve?O que é poesia?Sorri debochado,O suor escorrendo pela testa..."Não sou alegre, nem sou triste.Sou poeta".Donde vim, não interessa,Pra onde vou, pouco importa.A poesia, quem diria,não é verso, não é rima:a poesia incomoda!Livrei-me das amarras,ergui o dedo em riste,encarei seu olhar:Assustou-se o inquisidor,um passo recuou."Não se mova, não se mexa! Ou...Cala-te!Agora, você escuta. Ouviu?Poesia são os "puta que pariu"das topadas em quinas;é gozo, é preguiça,é o trottoir da moça na esquina.É rima pobre, ou nenhuma rima.A poesia é o incômodo,o calo no...

Pra não dizer que não falei foda-se

Essa foi uma crônica que nasceu do título. Lembrei daquela música do Vandré, e imediatamente se formou a paródia. E pela paródia, lembrei-me dA Nuvem do Rubem Braga. Conhecem?  Uma belíssima crônica, curta e vigorosa, sem meias palavras, sem divagações. Braga defende que, embora tenhamos nossos problemas com a água, telefone, luz em geral, carne, batata, transporte, custo de vida, buracos na rua, etc. etc. etc, há muitas outras coisas pra falar. E foi aí que me identifiquei. A gente acaba se acostumando a reclamar de tudo, em casa, no trabalho, com os amigos no bar, na fila do ônibus, em crônicas nos jornais e portais de notícias... mas vejam bem. Como foi mesmo que o Braga...

Cuidado com spoilers!

Já reparou como cada vez mais usamos estrangeirismos em nossa tão inculta e bela última flor do Lácio? Start, bike, smartphones, deletar... são só  alguns exemplos de como somos afetados pela cultura estrangeira. Não se estresse. Foi aqui que eu te peguei, cara pálida. A maioria das palavras da língua portuguesa tem origem árabe, espanhola, francesa, grega, latina, italiana, ou inglesa - além da influência, é claro, dos dialetos indígenas e africanos. Mas temos uma certa implicância com os termos em inglês, talvez pela forte influência contemporânea dos americanos do norte. Não há nada de anormal nisso. Não pensem vocês, inclusive, que o...

Por todos os dias

Todo dia é dia de alguma coisa. Temos um sem número de datas comemorativas, em nível federal, estadual e municipal, e quando menos se espera, um político propõe uma nova. Tem até dia do Samurai, acreditam? Grupos, causas e personalidades são homenageados em dias que são feriados ou não. É claro e evidente que isso não faz diferença nenhuma, se for motivo de descanso, você coloca as sandálias e que se dane o motivo do feriado. Não sei se me entendem, mas tento explicar-me, mesmo correndo o risco de parecer prolixo. A Semana Santa, por exemplo. Não poderia congregar todos os cristãos, mesmo sendo um resquício dos tempos em que a religião católica era a...

Tabuleiro de Reis

Já começo deixando bem claro que não me estendo muito. Portanto, você que tem o costume de ler no celular e sempre solta aquela piadinha nos grupos do aplicativo verdinho “vou esperar virar filme”, pode começar a ler sem medo de ser feliz. Pois bem. Ontem, numa roda de conversa, ouvi que “para ser médico, para estudar Medicina é necessário comprometimento”. Daí, você que já me conhece, sabe que eu retruquei. “Não. Eu acho que para ser qualquer profissional é preciso ter comprometimento; para estudar qualquer profissão, é necessário se comprometer.” Mas a tal pessoa (cacetas!) fez questão de insistir: “Entendo, entendo. Mas o...

Meu Bloco na rua

Odeio joinhas. Frases sem pontuação, excesso de abreviações, correntes, áudios sem fim. O surgimento dos aplicativos de mensagem criou um terreno onde vale tudo no relacionamento interpessoal, até mesmo um chute nas partes baixas. "Pachecão, você é muito chato". Sou mesmo, caros leitores. Eu procuro sempre me dedicar nas mensagens que troco com minha família, amigos e conhecidos para receber apenas um joinha como resposta. Isso pra mim soa descaso, desdém. "Ih, é o George. Vou mandar só um joinha pra ele e voltar a fazer as coisas mais importantes que sempre tenho a fazer". Qual é, minha gente, meus amigos, minhas amigas, minhas queridas crianças? Quem é que responde...

Todos querem ser Brizola

Ah! Lembrei o que queria dizer. Bem, a verdade é que estamos sempre querendo dizer alguma coisa, mas a essa altura do campeonato, aprendi que um dos grandes segredos da vida é saber calar quando o silêncio for mais construtivo que a própria voz. Enfim. Quando eu era garoto, tinha um vizinho que tomava umas canas no bar que ficava em frente à minha casa. Era um caboclo alto, do cabelo grisalho penteado para trás e bigode, também grisalho, que quase cobria os lábios. Daí que ele ficava com o copo americano (que é bem brasileiro, aliás) na mão, vinha até a beirada da calçada, e descarregava suas impressões sobre a sociedade, sobre a própria vida, num discurso eloquente e vibrante....

Do esquecimento

Certa feita estava eu em casa, assistindo TV. Sentei-me no sofá, recostei-me, peguei os controles e fiquei zapeando os canais. Foi então, que entre um canal e outro, tive um insigth, um estalo, uma ideia maravilhosa para uma crônica. Espetacular, caro leitor! Daí surgiu uma dessas tarefas domésticas a fazer e quando concluí, surgiu outra, e outra... pensei: amanhã escrevo. Outros compromissos  surgiram e... você lembra da ideia que tive? Nem eu. Forcei a mente para descobrir do que se tratava e nada, nadinha de nada, neca de pitibiribas. Por que é, meu Deus do Céu, que temos tanta facilidade para esquecer coisas que nos são importantes, às vezes até urgentes e tamanha dificuldade para esquecer...

Tudo passa

Aqui pra você, cara pálida, que veio até aqui porque achou o título bonitinho. De repente é um daqueles textos emotivos, que a gente compartilha, falando de superação, nhém, nhém, nhém. Mas não, é o Pacheco divagando já no início da confissão, como diria meu amigo Charlie Brown. Vamos o que interessa? Dia desses, caiu um toró daqueles, que os friburguenses tanto temem. Num dia quente de verão, em pleno janeiro, repleto de memórias incômodas, a chuva se formou lentamente e vigorosa, no início da tarde. Começou tímida e fraca, com algumas rajadas de vento também encabuladas. Mas como gato escaldado tem medo de água fria...

CARENTE, ENTEDIADO E PREGUIÇOSO

O ser humano é uma criatura carente, entendiada e preguiçosa. É evidente que somos feitos de muito mais que isso, mas vejam bem, caros leitores, acompanhem meu raciocínio. A gente precisa de – e quer – muita atenção, desde os primeiros dias de vida. Os anos passam, e isso não muda. O carinho, o amor, o abraço gostoso… tudo isso compensa uma carência latente que incomoda como o ronco no estômago. E vamos trocando essas demonstrações de afeto entre nós, compensando um ao outro, porque nós mesmos não nos bastamos. Além de tudo isso, a carência gera a necessidade de elogios aos nossos trabalhos, às nossas produções e se, por um acaso do...

Velhos tempos

Envelhecer é  coisa estranha. Não sei vocês, mas eu já estou caminhando pros quarenta - tudo bem que nem parece, mas sigamos em frente. Começam a aparecer dores no joelho, na coluna e o café já atrapalha seu sono. Você começa a se preocupar menos com algumas coisas e mais com outras. Coisas antigas não incomodam mais, a ponto de nos sentirmos tolos por termos perdido tempo  e energia com elas. Eu sinceramente não fazia ideia de que funcionava assim, e pra falar  a verdade, nunca me preocupei  muito com isso. A verdade é que quando comemoramos aniversário ou o réveillon fazemos um flashback de nossas vidas e planos para o futuro. Nao sei se me entendem. Explico-me:...

Dividir para conquistar

Eram umas dez horas da manhã quando o Sr. Jameson me chamou à sala dele. Os cabelos grisalhos penteados para cima, como de costume, e o bigode amarelado de nicotina. Um cigarro pela metade descansava no cinzeiro, quase completo de bingas de cigarro. – Senta aí, Pachecão. – disse ele. Cumprimentei-o e sentei. As paredes eram grandes vidraças que inundavam o compartimento de luz e de onde se podia ver quase todo o centro da cidade. – Então, no que posso ajudar o senhor? – perguntei, ato contínuo. – Quer alguma coisa? Café, água? – perguntou, fechando a veneziana atrás de si. Neguei ambos, estava tratando uma esofagite que me dava uma queimação danada. Ele comentou...

Porque a vida não basta

Nova Friburgo desde muito produz arte. E das boas. Não por acaso, somos considerados o berço dos Jogos Florais, temos uma academia de letras atuante, sociedades musicais centenárias, além de termos gestado tantos músicos, artistas e atores cujo trabalho hoje tem repercussão nacional. Mas, enfim. Tudo isso tem um começo, não é, caro leitor? Esses movimentos de produção artística, ao longo dos anos, passam por períodos de grande efervescência, e outros não tão ativos assim e levantem as mãos para os céus, sorte a nossa estarmos vivendo no primeiro caso. Vamos para a nossa terceira festa literária, temos cafés literários, produções...

Teoria da Conspiração

O último jogo do Brasil eu assisti no bar do Balboa, lá no centro da cidade. O tempo estava bom, tanto aqui e como na Rússia, e o movimento nas ruas era enorme. Jovens, adultos e crianças fantasiados com camisas da seleção de futebol, pinturas no rosto, e cornetas barulhentas mais nos lábios do que nas mãos, infelizmente. Aproximei-me do balcão, cumprimentei a todos e pedi uma cerveja – invariavelmente geladíssima, como eu nunca conheci noutro lugar. Se querem um bom conselho, quando puderem, vão lá ao Balboa, fica numa transversal com a Alberto Braune. Enfim, o estabelecimento não estava muito cheio, apesar do mote. Dei uma bicada na cerva, enquanto observava na TV os comentários...

Culpa do Januário

Acontece que o Januário cometeu a descortesia de falecer. Bateu a caçoleta, abotoou o paletó, foi pra cidade dos pés juntos. Morreu assim, de repente, de uma hora pra outra. Januário tinha lá seus quarenta anos, o rosto marcado de vincos e queimado pelo sol. Parece que passou mal na lavoura, qualquer piripaque desses no coração, quando as veias entopem de tanto comer chouriço frito na gordura de porco como tira-gosto pra cachaça. Não tinha filhos, mas deixara a esposa, cerca de uns dez anos mais nova. Dona Carlota era jovem, esbelta, de olhos meigos e submissos, e certamente encontraria um cafajeste e aproveitador, que a engabelasse com palavras doces e gentis somente para por a mão em suas carnes,...

Uma Alvorada Voraz

Na manhã da última sexta-feira, a Polícia Federal efetuou mandados de busca e apreensão na casa, no escritório e em empresas do ex-ministro Antônio Delfim Netto, colocando em evidência, supostas fraudes na licitação que definiu as empreiteiras responsáveis pela construção da usina de Belo Monte, no Pará. Delfim teria ajudado a estruturar o consórcio e recebido valores por meio de contratos fictícios de consultoria. O curioso (?) é que, indiretamente, Delfim já fora citado (não em delação) em uma canção da banda RPM, em 1986. Como a maioria das letras da época, Alvorada Voraz trazia uma letra altamente politizada, denunciando...

Estamos ficando burros

Um dia desses, eu revisava um conto enquanto aguardava para ser atendido pelo médico. Minha técnica de revisão não tem nada demais: depois do texto digitado, eu o imprimo e faço as alterações (exclusões, inclusões, correções) à carmim. Após isso, eu digito as alterações, imprimo novamente o material e vou fazendo meus rabiscos até me dar por satisfeito – o que pode levar uns três ou quatro processos desse. Pois bem, eis que minha vez de ser atendido se aproximava, e eu precisava parar subitamente a revisão. Antes de dobrar o papel, porém, procurei no canto superior esquerdo da folha um disquete para clicar e salvar meu tão importante...

O Natal em livros: histórias para se emocionar

Os primeiros registros da comemoração do nascimento de Jesus em 25 de dezembro constam no Cronógrafo de 354 (calendário ilustrado do ano 354). O costume teve início em Roma, mas no cristianismo oriental o Natal já era celebrado em 6 de janeiro, em conexão com a Epifania. A data é comemorada até mesmo em nações nas quais o cristianismo não é predominante, como Japão e países árabes (com exceção da Arábia Saudita, onde práticas não islâmicas são punidas) e se popularizou no Ocidente, através dos tempos, assumindo características próprias em cada cultura. Apesar de o capitalismo ter transformado o Natal em mote...

Eu não sei mentir

A gente finge entender. A gente finge aceitar. A gente finge que lê. A gente finge respeitar.   A gente finge.   A gente finge que acha graça. A gente finge se divertir. A gente finge que é pirraça. A gente finge não desistir. A gente finge a barriga. A gente finge a cor da pele. A gente finge a cor dos olhos. A gente finge a cor do cabelo. A gente finge ter dentes. A gente finge ter peitos. A gente finge ter.   A gente finge.   A gente finge a roupa que veste. A gente finge ser importante. A gente finge ser famoso. A gente finge que é. A gente finge não ser.  A gente finge ignorância. A gente finge inteligência. A gente finge tolerância. A gente finge possuir. A gente finge se...

Crônica tupiniquim

A sociedade era estratificada e hierarquizada. A classe política, vivia de banquetes e muito luxo, isenta até mesmo de julgamento em tribunais comuns. A base da sociedade era formada pelos trabalhadores, camponeses e burguesia que, sustentava toda a sociedade com seu trabalho e com o pagamento de altos impostos, e os desempregados aumentavam em larga escala. A vida dos trabalhadores e camponeses era de extrema miséria, sendo assim, desejavam melhorias na qualidade de vida e de trabalho. A burguesia, mesmo tendo uma condição social melhor, desejava uma participação política maior e mais liberdade econômica em seu trabalho. Apoiado em tal frágil estrutura, o governo afundou com facilidade numa crise econômica e...

Para os dias que virão

Para os dias que virão desejo fé, entusiasmo e força. Quando eu era garoto, o presidente era o Sarney, que assumiu após a morte do Tancredo. Eu não lembro quase nada dessa época, até porque eu era muito jovem, mas o pouco que sei é que as coisas eram bem difíceis. Desde esse tempo para cá, foram (adivinhem?) sete presidentes: três se reelegeram; um(a) não cumpriu o segundo mandato inteiro; e tivemos dois impeachments. Nesse intervalo tivemos várias políticas econômicas e públicas (à moda da casa), a fim de equilibrar e organizar a sociedade e colocar o Brasil em lugar de destaque, um país em “desenvolvimento”. Foram implementadas várias moedas...

Não está fácil para ninguém

Em um reino fictício, a rainha foi deposta, investigada por irregularidades fiscais. Seu Conselheiro, ao assumir o trono, também se torna investigado por corrupção, enquanto busca aprovar medidas a fim de restaurar a economia, as relações trabalhistas, e afastar de vez a crise que vem assolando o país. Estados em falência, poder de compra diminuído e população desconsolada. Recebem a notícia de que aquele tal rei que veio do povo, também investigado, foi condenado pela Corte. Ao longo de todo esse processo, manifestações pró e contra a Coroa pipocam em todo reino, um brado retumbante de um povo heróico ouviram do Ipiranga. Está difícil para você?...

Ensaio sobre o tempo

A vida é breve. A vida é uma prece murmurada, na calada da noite, interrompida subitamente pelo sono, à nossa revelia; é um dia de sol, de céu azul e límpido, de brisa fresca, de pássaros gorjeando em rasantes. Sem que percebamos, vem logo a noite e o frio, a escuridão. Talvez a vida seja um soneto: belo, curto, emocionante. E não há nada que possamos fazer a fim de deter o sono, a noite… o fim do poema. Só nos resta orar, recitar, viver. A vida é breve, é o que sei. É apenas o que sei, é tudo o que eu sei. E o que é o tempo? N a mitologia grega, Cronos é o mais jovem dos titãs, filho de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a terra. Rei dos titãs,...

Isso é pra você aprender!

Confesso que não sou autor dos episódios a seguir. A verdade, contudo, é que acredito que muitas histórias que circulam oralmente na cultura popular precisam – e merecem – ser registradas para que não se percam e que nos sirvam de lição. Afinal, alguém discorda de que toda história tem algo para contar e nós, muito que aprender? Diz que dois garotos estavam negociando um burro com o dono de um sítio, com a intenção de rifá-lo; cerca de duzentos bilhetes já estavam todos vendidos (a dois reais cada) e o sorteio seria no dia seguinte. Dava para pagar o produto e ainda sobrava uma graninha boa. O animal estava muito bem cuidado: os pelos acinzentados, brilhantes, eram...

Como assistir a um filme na TV

Parece tarefa fácil, mas não é não. Quando eu era garoto, era mais difícil ainda, é bem verdade. Tínhamos um único aparelho, um caixote pesadíssimo, com partes de madeira, em preto e branco (em que se colocavam telas coloridas por cima), que sintonizavam – quando sintonizavam – apenas quatro canais. De vez em quando o pai subia na laje e virava a antena “espinha de peixe” para melhorar a imagem: “Tá bom agora?”, gritava lá de cima; “Tá bom!” / “Tá ruim de novo!”, a gente respondia. Voltemos ao futuro. Hoje, a minha TV tem uma série de canais, mas é praticamente monopolizada por programas infantis. Mal consigo assistir a um...

Ensaio sobre a juventude

Sorte a minha ter ingressado em uma das instituições mais tradicionais de Nova Friburgo. Em 2017, a Academia Friburguense de Letras completa 70 anos de fomento à Literatura, promovendo e difundindo a arte e cultura nestas terras altas. Tomemos aqui o conceito etimológico do termo "tradicional". Tradição vem do latim traditio, tradere, que significa "entregar", "passar adiante", ou seja, aquilo que é transmitido de geração em geração. Na academia, as idades variam na faixa dos 30 aos 80 anos, assim, são diversas gerações que convivem harmoniosamente, trocando experiências de vida e literárias, e o enriquecimento e amadurecimento pessoal é preciosíssimo. Em uma...

Literatura Urbana

O que é a Literatura? Onde vive? Do que se alimenta? Essas e outras respostas na sexta-feira, no G* Repórter. Meus amigos devem achar que sou um tanto maluco. Vá lá, talvez o escritor seja um tipo de patologia psicológica. O fato é que eu vejo literatura em todo lugar. Sim, em todo lugar. Em paredes, muros, paralamas de caminhão... Isso mesmo! Ou você acha que a literatura está só nas grandes editoras, cara pálida? Sinto desapontá-lo, mas embora tentem fazer acreditarmos nisso, não. A Literatura é tão variada em gêneros e plataformas que seria no mínimo injusto desconsiderá-las. Veja o caso das poesias de rua, essa literatura urbana pichada nos muros com a...

A Máscara

Dizem que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval. Há também quem diga que, tudo acaba em Carnaval, numa expressão similar ao “acabar em pizza”. Não posso discordar nem de uma, tampouco da outra. Contudo, para quem costuma defender a brasilidade das coisas feito o Policarpo Quaresma, o Carnaval nunca foi brasileiro e remonta à Antiguidade. A palavra deriva do latim carnis levale que significa retirar a carne (e não Festa da Carne, como é comumente descrito) que faz referência com o jejum que deveria ser realizado durante a quaresma e também com o controle dos prazeres mundanos. No Brasil, a festa surgiu no período colonial, com a adaptação de celebrações...

A prisão não são as grades

Não é apenas o sistema prisional, a economia, a política brasileira que está em crise. Passamos por uma crise de valores. Voltamos à Idade Média? Cadeia não é calabouço pro indivíduo sofrer até morrer. Se você pensa assim, se você deseja que as pessoas morram, independente do que ela fez, tem alguma coisa errada. A solução, cara pálida, não é prender mais gente, não é matar mais "bandido", não é construir mais presídios. A solução é evitar que as pessoas se marginalizem. E isso envolve um Estado mais eficiente. Daí muitos vão dizer “Ah, Pacheco, mas você está dizendo isso...

Domingo eu vou pra praia

O sol está de rachar. E não é força de expressão não: segundo especialistas, desde 1943 não faz um calorão desses. Em São Paulo, por exemplo, o nível dos reservatórios está tão baixo que em alguns já se pode avistar o fundo rachado feito o solo do sertão nordesti-no. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) está, inclusive, oferecendo um desconto de 30% para quem economizar água.Onde vai parar esse calor? É quase insuportável sentir o sol na pele, em pleno às três horas da tarde. E se em casa também estou suando em bicas, a solução pode ser tomar um banho de mar. Está decidido:...

Você SA

Como assim já é Natal? Não se assuste, caro leitor. Se, na mais remota hipótese, você ainda não percebeu, falta uma semana para as festas natalinas. Repito: como assim? Esses dias estávamos comemorando o feriado de Carnaval, e também o da Páscoa – aguardando ansiosamente o fim de semana da Black Friday para gastar o que não temos... E “então é Natal”... (com o sotaque inconfundível da Simone). Passa rápido mesmo. E talvez seja por tantos compromissos que assumimos ao longo de nossas vidas e cada vez mais. Vivemos em nossa era como um navegador de internet cheio de abas abertas (olhou para os sites abertos agora, não é?). Fazemos muito mais coisas (ao mesmo...

O Grande Mistério

Certa manhã, a cidade acordou com um grande mistério: as pessoas estavam desaparecendo. Não eram uma, ou duas, mas várias. Primeiro foram os motoristas de ônibus. Todos, todos eles. Foi uma confusão daquelas, mas ninguém se importou muito, afinal, dava para ir a pé para o trabalho, de bicicleta, ou de táxi, ou em seus próprios carros. Então sumiram os professores públicos. O que estava acontecendo, enfim? Também os pro-fessores? Mas outra vez, pouco se importaram, há gente que paga por esse serviço, então, que diferença faria se os professores públicos sumissem? Em algum momento teriam de aparecer, ora bolas, fosse na Copa do Mundo ou nas...

O próximo candidato

Ajeitei-me na cadeira e organizei os papéis sobre a mesa. Com o mouse, percorri a tela do computador, escolhi a pasta adequada e cliquei na ficha editável, para digitar os dados fornecidos. Eram dados simples, mas suficientes para fazer a seleção necessária. Pausei a música no aplicativo de mídia e depois, retirando o telefone do gancho, fiz contato com a secretária. – Pode pedir para que o candidato entre, por favor.– Ok. – respondeu-me secamente.Logo em seguida o homem entrou, pedindo licença e fechando a porta logo atrás de si. Usava um terno simples, mas bem cortado e seus cabelos estavam penteados com gel. Sorria um tanto sem graça, mas o sorriso parecia forçado para parecer...

Contatos Imediatos de Quinto Grau

A gente recebia o pagamento sempre na primeira sexta-feira do mês, em cash, na mão. Saía do trabalho, de banho tomado, bolsa a tiracolo, para o escritório do patrão. Recebíamos a grana, assinávamos um recibo e girando nos calcanhares, seguíamos para o bar do Balboa – o cara tinha os olhos caídos e a boca torta – beber cerveja e jogar sinuca e conversa fora. E é claro, em bar sempre tem uma garota ou outra que bebe junto com a rapaziada, quanto mais em dia de pagamento. Minha mulher nunca gostou que eu jogasse sinuca no Balboa nos dias de pagamento, é evidente que ela desconfiava de minhas puladas de cerca: mexia em meu celular, vasculhava em meus bolsos, fazia a mesma pergunta várias vezes...

Enquanto isso

Cheguei à consulta cerca de meia hora adiantado. Apresentei-me à atendente, entreguei documentos e preenchi formulários, timbrados com o brasão da instituição. Havia apenas eu na sala de espera, aquele atendimento era muito concorrido, mas eles cuidavam para os horários nunca baterem e consequentemente os clientes não se cruzarem nos corredores. Sigilo total, era o que dizia o cartãozinho que chegou até mim por um amigo.Depois de toda burocracia, fiquei sentado aguardando, estalando os dedos por nervosismo. A sala era ampla e completamente branca, a não ser por alguns detalhes prateados em moveis. As paredes, o teto, o piso em porcelanato, o grande tapete felpudo, o sofá em courvin, a mesa da...

A filosofia do erro

Não é segredo para ninguém que o trânsito de nossas cidades a cada dia se torna um caos imperscrutável. E a culpa, meus senhores... bem, de quem é a culpa? Certa feita estava eu no centro da cidade com a minha família, atravessando a avenida principal, em que diversos supermercados, lojas e bancos estão instalados – e por isso mesmo é uma via muito movimentada – em que transitam ônibus, caminhões e carros de passeio. Nessa rua – ah, se essa rua, se essa rua fosse minha... – os carros param em vagas de farmácia (mesmo que o destino não seja ela), ou em fila dupla, o que é pior ainda. E nesse fatídico dia, minha esposa precisava ir a uma determinada loja, e eu...

O mesmo sabor e qualidade

Karl Marx deve estar se contorcendo na tumba. O intelectual e revolucionário alemão ficou conhecido por suas críticas ao Capitalismo, e influenciou diversas áreas, especialmente a Filosofia, Geografia, História, Direito, Sociologia, e até Literatura. Se-gundo Marx, no processo de produção capitalista, o homem se aliena, tornando-se sim-plesmente uma peça da engrenagem produtiva, e a principal consequência disso é que o trabalhador não se reconhece no produto que fez, perdendo sua identidade enquanto sujeito. Entretanto, mesmo vivendo individualmente essa dominação, enquanto inte-grante de uma classe social, ele poderia tomar consciência dessa situação de opressão e,...

O voo do marreco

Quem nunca sonhou em voar? Não voar como Dumont e os irmãos Wright sonharam, mas levantar voo por si mesmo, como um pássaro, navegando pelo céu impunemente, sem compromisso ou responsabilidade como Ícaro. Coisa maravilhosa é sonhar! Ingressar nesse mundo fantástico onde tudo é possível, onde o descabido passa despercebido, é comum,é normal, é banal. Eu já passei esta experiência por diversas vezes, mas… é estranho. Em meu caso, eu sempre caminhava pelas calçadas do centro da minha cidade, em meio a tantos outros que se acotovelavam, apressados com seus compromissos, indo e voltando, alienados, cheios de sacolas nas mãos ou dedilhando smartphones. Em dado momento,...

A conta, por favor

Pedi um pingado e um pão com manteiga, como sempre, naquela padaria no centro de Friburgo. Faz tempo que não lancho salgadinhos fritos; com 34 anos, meu metabolismo desacelerou e minha barriga está cada vez mais chegando na minha frente. É verdade que esse tipo de lanche rápido (ou fast food, como preferirem) estão espalhados por toda a cidade, mas não acredito que isso seja para facilitar a vida dos transeuntes, o negócio é que isso vende pra caceta, não estão nem aí se isso vai entupi-lo de carboidratos e gorduras saturadas, insaturadas e coisa e tal. O negócio é ganhar dinheiro. Mas que o cheiro da fritura seduz, ah, isso seduz. Ignorei a duras penas, segui para a padaria e pedi o...

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás. Então, no verão de 1998, um tio – que era sócio de um clube na cidade – teve a brilhante ideia de levar minha família à piscina do dito cujo. Havia uma espécie de comemoração, e um amigo dele animava a festa tocando um teclado. Foi um evento bacana. Eu, mesmo medroso – e sem saber nadar...