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Publicado 26/09/2016 11:36:27

O próximo candidato

Ajeitei-me na cadeira e organizei os papéis sobre a mesa. Com o mouse, percorri a tela do computador, escolhi a pasta adequada e cliquei na ficha editável, para digitar os dados fornecidos. Eram dados simples, mas suficientes para fazer a seleção necessária. Pausei a música no aplicativo de mídia e depois, retirando o telefone do gancho, fiz contato com a secretária.

– Pode pedir para que o candidato entre, por favor.
– Ok. – respondeu-me secamente.
Logo em seguida o homem entrou, pedindo licença e fechando a porta logo atrás de si. Usava um terno simples, mas bem cortado e seus cabelos estavam penteados com gel. Sorria um tanto sem graça, mas o sorriso parecia forçado para parecer tímido.
– Sente-se, por favor. – disse eu, indicando a cadeira à minha frente com a mão.
– Oh, muito obrigado, meu amigo! Como vai? Tudo bem? – cumprimentou-me apertando minha mão com firmeza antes de sentar.
– Err… eu… eu vou bem. Obrigado. – respondi ao cumprimento, achando seu tom um tanto exagerado para a ocasião. Então… qual o seu nome, por favor?
– Luizinho, Luizinho da Pipoca.
– Como, senhor?
– Luizinho da Pipoca. Algum problema?
– Eu preciso do seu nome real, senhor.
– Ah, pode colocar Luizinho da Pipoca. É como todos me conhecem. Aliás, sou muito conhecido.
– Ahn, ok. Qual sua ocupação?
– Err.. eu vendo pipoca. Entendeu? Luizinho da Pipoca. – respondeu-me com um olhar debochado, como se admirasse eu não ter entendido a relação de seu “pseudônimo” e o que ele fazia para viver. – A propósito, a melhor pipoca da cidade! Sabe… o segredo é a temperatura do óleo. Elas estouram todinhas, o cheiro vai longe. Mas quanto a isso, trata-se de um segredo de família e infelizmente não posso lhe contar…
– Entendo… E o senhor tem alguma habilitação para o cargo pretendido?
– Habilitação? Como habilitação?
– Algum curso, experiência na área?
– Desculpe, mas o anúncio não falava nada sobre habilitação. Inclusive, deixava bem claro que todo mundo podia concorrer. Apesar disso, já fui do grêmio estudantil e frequentei algumas reuniões da Associação de Moradores.
– Mas você entende alguma coisa de Administração Pública, Direito Administrativo?
– Não, mas… isso aí eu aprendo se conseguir a vaga. Acredito que vai ter gente mais experiente do que eu lá, e não vão se incomodar em me ensinar o que sabem.
– Aposto que não…
– É só isso?
– Não, ainda tenho algumas perguntas. O que o senhor pretende fazer se for eleito para o cargo?
– Ah, eu tenho muitos planos. Quero realizar o sonho de uma viagem pelas praias do Nordeste, devo ajudar uma tia minha que precisa de tratamento dentário, talvez compre um terreno no meu bairro… – respondeu-me olhando para o teto, como se imaginasse a realização de seus sonhos. –Há um cantão lá que os terrenos são baratinhos, mas a rua é de terra batida. Contudo, se eu estiver dentro consigo asfalto para lá em dois tempos. – completou, fazendo uma concha com a mão, como se pedisse segredo.
– Desculpe, me refiro ao o que você vai fazer na função.
– Oh, me desculpe! Então… eu vou cumprir minhas obrigações da melhor maneira possível, respeitar meus superiores e colegas de trabalho, ser organizado e honesto. Vou trabalhar muito, não faltarei um dia de trabalho. Meu nome é trabalho, senhor!
– Está ótimo! Acho que é só. – disse secamente, com os olhos grudados no computador, enquanto concluía minhas anotações.
– Então acabou?
– Sim, o senhor está dispensado.
– Que bom! O senhor acha que eu tenho alguma chance de conseguir o cargo?
– Olha… como não serei apenas eu que vou te avaliar (e você é muito conhecido), acho que você tem grandes chances.
– Ahn… obrigado. Bom dia!
– Desculpe, só mais uma coisa, é uma pergunta informal. Por que o senhor quer o cargo?
– Ah, doutor… eu sei que um trabalho temporário, mas o salário é muito bom, além de todas essas regalias e adicionais. E eu ainda posso me candidatar novamente ao final do período. Dá pra mudar de vida!
– Entendo. Bem, é só isso. Boa sorte!
– Obrigado!
E agora? A perspectiva é muito ruim. O que eu ouvi falar desses candidatos não está no gibi! Cada um pior que o outro. Eles não usam sequer o próprio nome! Não tem habilitação para o cargo, nem mesmo sabem o que se faz na função. Estão mais interessados na remuneração do que com o serviço propriamente dito. Fatalmente, terei de escolher o menos pior. Minha opinião, contudo, não tem muita importância; como esse cara aí mesmo disse, ele é muito conhecido, e pode muito bem ficar com o cargo, mesmo não sendo merecedor (nem habilitado) para isso. Enfim, talvez chegue alguém à altura da responsabilidade da função. Quem sabe?
Ainda divagando, absorto em pensamentos sobre o futuro e tamborilando os dedos na mesa, retirei novamente o telefone do gancho.
– Pode pedir para que o próximo candidato entre, por favor?

George dos Santos Pacheco
georgespacheco@outlook.com

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