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Publicado 16/10/2017 17:58:08

Jornal O Globo diz em matéria que "Friburgo dá guinada na economia e sai mais rápido da crise"

Reprodução da página destacando a economia friburguense

Por Glauce Cavalcanti / O Globo (15 de outubro de 2017)

Apesar de ter sofrido o pior desastre de sua história em 2011, quando fortes chuvas causaram destruição na Região Serrana fluminense, Nova Friburgo atravessou a crise em melhor forma que a economia do Estado do Rio e se recupera mais rapidamente neste início de retomada. Com 185 mil habitantes, a cidade — que se prepara para festejar seus 200 anos em maio de 2018 — teve saldo positivo de 589 novos empregos formais de janeiro a agosto deste ano, segundo dados do Caged. Reverteu, assim, o desempenho de igual período de 2016, quando perdeu 640 postos com carteira assinada.

No centro desse movimento, está a indústria, responsável por 40% do PIB do município, segundo a prefeitura, com base em dados da Federação da Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), com força principalmente nos setores metal-mecânico e têxtil, que puxou as contratações em linha com a recuperação da produção e do faturamento.

A outra fatia da economia friburguense é sustentada por pequenos negócios, afirma o Sebrae. Para além da indústria, a cidade conta com polos produtivos em segmentos como os de agricultura, aquicultura, floricultura e, mais recentemente, também o de cerveja artesanal. A bebida, que já movimenta perto de R$ 10 milhões ao ano na cidade, de acordo com a Beer Alliance de Nova Friburgo e Região, está perto de ganhar um selo de origem. A localidade é ainda o segundo maior produtor de flores de corte depois de Holambra, em São Paulo, e o principal no estado em trutas.
— Não significa que temos uma economia pulsante, explodindo. O país atravessa uma grave crise, que reduziu a demanda em vários níveis. Temos dificuldades, houve redução de emprego e arrecadação. Mas, por contarmos com uma gama de setores ativos na economia, conseguimos nos manter melhor. Houve resiliência, mesmo na recessão. E, este ano, já registramos avanço — explica Walter Thurler, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico.

PREOCUPAÇÃO COM EXPANSÃO SUSTENTADA

No segmento têxtil, o principal pilar é o de confecções de moda íntima, que emprega 20 mil pessoas, ao todo. Vem seguido do metal-mecânico, que gera outros 3.700 empregos, contando com grandes fabricantes como Stam e Haga, por exemplo, ambas no segmento de fechaduras e cadeados.

— A ameaça das importações levou a indústria local a investir em inovação e qualidade de produto. E isso ajudou não apenas a resistir ao pior período da crise como ajuda agora, na retomada. Vamos encerrar 2017 com crescimento em emprego e faturamento — afirma Carlos Eduardo de Lima, presidente da Firjan para a região Centro-Norte fluminense.

O economista Mauro Osório alerta para a falta de dinamismo da economia da cidade serrana nos últimos anos. Segundo ele, é preciso focar em planejamento para que os resultados se mantenham.

— No Estado do Rio, Friburgo tem vantagem porque, proporcionalmente, é o município com o maior número de empregos na indústria de transformação, sobretudo nos segmentos de confecção e metal-mecânico. Mas falta estratégia para fazer do turismo, por exemplo, que tem grande potencial na região, uma atividade relevante para a economia — pondera Osório.

Ter atividade econômica privada forte ajuda, mas é preciso traçar estratégias para ampliar resultados em outras frentes, diz o economista.

— Em economia regional, tem de se pensar nas atividades indutoras e que podem atrair renda de fora ou substituir importação. O dinamismo atual é positivo, mas é preciso entender se ele é sustentável ou um voo de galinha — destaca.

Empreendedores da região vêm trabalhando com foco em dar sustentabilidade ao crescimento. Uma das frentes abertas nos últimos anos, e que já rende resultados, é a de fabricação de cervejas artesanais. Friburgo é âncora de um polo regional que conta com 26 estabelecimentos relacionados à produção da bebida, sendo 16 deles em operação, como Angels & Devils, Ranz, Dual e outras.

Não é negócio exatamente novo em uma cidade que acolheu imigrantes alemães e suíços no século XIX, mas ganhou fôlego a partir de 2009 e maior embalo em 2015, quando uma lei municipal deu incentivo a microcervejarias, explica Sérgio Paiva, diretor executivo da Beer Alliance.

— Os negócios desse segmento têm isenção de IPTU e de pagamento de alvará pelo período de cinco anos. Além disso, com produção de até três milhões de litros por ano, é considerada atividade de baixo impacto ambiental, o que traz agilidade na abertura da empresa. Em paralelo, houve preocupação com o escoamento da produção, com benefícios também à cadeia local de distribuição, em comércios, bares, restaurantes e hotéis.

APOSTA NA FORMAÇÃO DE MICROEMPREENDEDORES

Atualmente, diz Paiva, a capacidade instalada é para até 120 mil litros de cerveja por mês. A Beer Alliance trabalha agora para aprovar um selo de origem da bebida fabricada na região. Para contar com a chancela de Cerveja da Região de Nova Friburgo, os fabricantes terão de se certificar junto a uma acreditadora para terem atestada a qualidade do processo de produção e da bebida.

— Vamos dar entrada no processo de registro do selo no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e esperamos fazer o lançamento oficial na MaiFest, a festa da cerveja local, que vai coincidir com o mês de aniversário de Friburgo — diz Paiva.

Outra frente se organizando para avançar é a de flores de corte, concentrada no bairro de Vargem Alta, na estrada para Lumiar. No polo de floricultura, são mais de 200 produtores, segundo Amauri Verly, presidente da associação Afloralta. Vai desde os pequenos, que é o caso dele, até os de grande porte, como o Sítio do Luar.

— Nós colhemos mais de 4,5 milhões de maços de flores por ano em Friburgo, com 80% da produção enviados ao Cadeg, no Rio. Nossa produção é forte em variedades como crisântemos, rosas e, mais recentemente, astromélias.

As astromélias, de cultivo mais fácil, ganharam espaço pelo preço mais baixo. E estão forçando a Afloralta a atuar de forma a garantir que os produtores possam reduzir custos e ampliar ganhos.

— Na crise, as pessoas compram flores mais baratas. Então, para manter o ganho, é preciso plantar e vender mais. É um desafio. Nós nos organizamos em uma cooperativa para comprar insumos em conjunto, reduzindo os custos. O próximo passo será organizar a produção. Se todos plantarem as mesmas flores, vamos concorrer entre nós mesmos — pondera Verly.

A formação dos pequenos produtores ajuda a avançar como polo econômico, avalia Márcia Moreira, analista do Sebrae em Friburgo:

— Trabalhamos de perto com polos como o de produtores de morangos e o de flores. Os produtores de Friburgo são mais informados e buscam capacitação sempre. Isso faz diferença no resultado.