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Publicado 29/06/2017 17:41:52

Friburgo: Pessoas alfabetizadas na maturidade escrevem livro

Dona Maria Otília: lição de vida

Por Angela Pedretti / Foto: Daniel Marcus

Há um cotidiano de coisas simples - como assinar o próprio nome, ler uma receita ou o letreiro de um ônibus, responder a uma carta -, do qual centenas de pessoas em Nova Friburgo estão excluídas. Mesmo modestos sonhos podem ser adiados pela ausência de instrução básica. E são muitas as razões a justificar o analfabetismo entre jovens e adultos: contextos sociais e familiares difíceis, o trabalho infantil que cedo substituiu a escola, entre outros motivos, retardam a sala de aula na vida de muita gente em todo o país. E é sempre triste perceber que as novelas podem até fazer muita gente sonhar, mas não ensinam a ler e a escrever.

Em Nova Friburgo, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), vem alimentando sonhos a partir da interferência na realidade dos 800 alunos que atualmente frequentam aulas oferecidas pela rede municipal de ensino. Definida pelo artigo como a modalidade de ensino que “será destinada àqueles que não tiveram acesso ou à continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria, a EJA tem como principal tarefa fazer valer o previsto no artigo 208/inciso I da Constituição Federal, que garante o acesso e a permanência ao ensino fundamental a todos os brasileiros.

Na rede municipal friburguense, a EJA começou oficialmente em 2010, com 380 alunos no Fundamental I e II. Hoje já são 24 unidades, com 420 alunos no Fundamental II e 380 alunos no primeiro segmento. Um avanço só garantido pelo amor e dedicação de professores empenhados em ensinar àqueles a quem tal oportunidade chegou mais tarde na vida. O resultado de todo esse trabalho é mais do que gratificante: uma lição para mestres e alunos, agora eternizada no livro "A Nova Friburgo que eu sonho", lançado neste mês de julho, no Teatro Municipal Laercio Ventura, em um projeto desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação.

Danielle: "Não gostava de ler e nem de escrever. Agora pretendo escrever bastante"

A obra ganhou ainda maior simbolismo por ter sido totalmente elaborada por estudantes da EJA. Desde os textos e poesias, até as ilustrações contidas no livro, tudo foi feito por alunos e alunas de idades diversas e histórias de vida tão distintas quanto inspiradoras. Como Danielle Jandre da Silva, de 23 anos, que redescobriu o prazer e a importância dos estudos após alguns anos afastada da escola. Ela conta que parou de estudar após ficar grávida, mas agora já está cursando o 9º ano no Colégio Municipal Dermeval Barbosa Moreira, em Olaria, e se forma neste mês de julho.

“Por incrível que pareça eu não gostava de ler e nem de escrever. Eu escrevi a poesia sem a intenção de entrar para o livro, mas gostei muito do resultado. Agora pretendo continuar escrevendo bastante. Minha intenção é concluir o ensino médio e fazer faculdade de matemática. A EJA é uma iniciativa muito importante, porque nem sempre temos a oportunidade de estudar. É uma chance para que a gente possa recuperar o tempo perdido”, disse Danielle.

Gari, seu Walter volta às aulas após 45 anos: "Faz a gente se sentir útil"

Outra história inspiradora é a do seu Walter da Silva Ribeiro, de 58 anos. Ele é gari da Prefeitura de Nova Friburgo e estuda na sala montada no Galpão do Trabalhador, na sede do Executivo municipal, através do projeto Lápis no Papel. Há 45 anos longe dos estudos, o tímido seu Walter encontrou na leitura e na escrita a oportunidade para se reconectar com o mundo.

“Hoje em dia a tecnologia está avançando muito rápido, então, é importante a gente procurar sempre o conhecimento, se aprimorar cada vez mais. Faz a gente se sentir útil. Também foi muito importante essa oportunidade de ter uma poesia escrita em um livro. Eu não tinha o hábito de escrever, fui realmente estimulado por essa oportunidade do livro e pretendo continuar. Não apenas escrevendo, pois assim que terminar a EJA quero dar sequência aos estudos, se for possível”, sonha Walter.

"Eu quero morrer maluca, burra, não"

Outra comovente história é a de dona Maria Otília de Paiva Machado, de 87 anos. Portuguesa, ela veio para o Brasil na década de 60, morou em Brasília e Rio de Janeiro, até vir para Nova Friburgo, há cerca de oito anos. Mãe de uma professora da rede municipal, dona Maria Otília é casada, cuida de uma filha com necessidades especiais e, mesmo assim, consegue conciliar tudo isso com as aulas na Escola Municipal Cipriano Mendes da Veiga, em Barracão dos Mendes, na zona rural do município.

“Quando viemos para Nova Friburgo falei com minha filha Fátima: ‘o que eu quero de você, é que me matricule em uma escola’. Depois que comecei não parei mais. Fui até o 5º ano na Escola Municipal Hermínia da Silva Condack, em Chácara do Paraíso. De lá fui para a Escola Municipal Cipriano Mendes da Veiga, em Barracão dos Mendes, onde minha filha também leciona. Gosto muito de ler e escrever. Estou muito contente. Quero continuar estudando. Se eu continuar, todos estão convidados, com 100 anos farei minha formatura. O estudo, para mim, é tudo na vida. Adoro”, revelou dona Maria Otília.

Comunicativa e bem-humorada, dona Maria Otília se diz orgulhosa por integrar o livro: “Estou muito feliz com essa oportunidade! Meu marido diz que quem vai para escola com a minha idade é maluco. Então eu quero morrer maluca, burra, não”.