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Publicado 04/11/2015 11:54:15

Exercício ajuda a tratar Alzheimer, mostram estudos

Correr regularmente ajuda a reduzir mudanças na estrutura do cérebro relacionadas ao envelhecimento

Pacientes voltam a fazer atividades simples, como tomar banho e passar café

O poeta romano Décimo Júnio Juvenal, a quem é atribuída a máxima “Mens sana in corpore sano” (Mente sã num corpo saudável) não pensou no tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas quando a escreveu. Juvenal estava mais interessado em criticar aqueles que rogavam aos deuses por coisas tolas em vez de orar por uma boa saúde. Mas a vanguarda de estudos de neurociência mostra que ele foi involuntariamente profético. Hoje, exercícios físicos começam a ser incluídos no tratamento de pessoas com doenças neuropsiquiátricas, como o mal de Alzheimer e a síndrome do pânico. E os resultados são animadores.

Outras pesquisas derrubam ainda o mito de que as pessoas mais inteligentes são aquelas dedicadas apenas a atividades intelectuais, do tipo que faz tudo sentado. Pesquisas em escolas americanas demonstram que os alunos que se saem melhor em ciências e matemática, por exemplo, são aqueles que se exercitam mais. 

O mal de Alzheimer cresce no mundo à medida que a população envelhece, mas não tem tratamento farmacológico eficaz. Hoje, é a principal forma de demência em idosos. Mas uma pesquisa realizada na Unicamp indica que o exercício é um aliado poderoso, capaz de melhorar funções do cérebro e aumentar a qualidade de vida de pessoas com a doença. 

O estudo que faz parte da tese de doutorado da especialista em ciência do esporte e neurociência Camila Vieira Ligo Teixeira, do Laboratório de Neuroimagem e Física Médica da Unicamp, oferece resultados significativos. Após seis meses de treinamento com exercícios, um grupo de 25 pacientes com uma forma leve de Alzheimer obteve melhora clínica, com menos estresse, apatia e depressão.

CAPACIDADES RESTAURADAS

Os pesquisadores empregam a associação de avaliações clínicas a exames sofisticados, como a tractografia, capaz de analisar as conexões e a integridade dos neurônios. Este exame mostra se funções nervosas perdidas pela doença foram recuperadas. Segundo Camila, o exame identificou a remielinização dos neurônios — em bom português significa que a capa protetora das células nervosas, importante para a comunicação de sinais do cérebro, foi restaurada em parte:

— Nosso estudo sugere que o exercício ajuda a recuperar a comunicação entre as células afetadas pela doença. Observamos uma melhora da função executiva do cérebro. É ela que nos ajuda a planejar. Inclusive coisas simples, como tomar banho e fazer café. Essa função é muito comprometida pelo mal de Alzheimer. Os pacientes voltaram a fazer coisas que já não podiam mais. A atenção também melhorou

O grupo de pesquisadores, que inclui ainda educadores físicos, geneticistas, cardiologistas e outros profissionais, ofereceu aos pacientes — homens e mulheres dos 60 aos 82 anos — atividades como caminhada, futebol, vôlei, tênis e, para alguns, até corrida. A intensidade era variável em função do estado do paciente e aumentava progressivamente.

Como o estudo avaliou dados de apenas seis meses de treinamento, ainda será preciso mais tempo para saber se houve ganhos de memória significativos. Camila está otimista de que haverá.

Seu otimismo se baseia em pesquisas básicas realizadas em laboratório. São estudos como os da neurocientista Clarissa Schitine, do Laboratório de Neuroanatomia Celular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ. Clarissa estuda a neurogênese, a capacidade do cérebro de formar novos neurônios. Há cerca de duas décadas, achava-se que os neurônios perdidos não eram repostos. Agora, se mostra que os exercícios são capazes de estimular o desenvolvimento de novos neurônios. Em animais, está comprovado.

Os neurônios nascem em áreas profundas do cérebro, o hipocampo e a zona subventricular. O hipocampo está ligado à memória e, por isso, o exercício é visto como aliado para combater a perda de memória associada ao estresse, ao envelhecimento e a doenças. O exercício atua sobre a gênese da proliferação de neurônios. Ele faz isso ao aumentar a produção de uma substância chamada BDNF, uma espécie de tônico cerebral, que favorece a formação, a proliferação e a comunicação dos neurônios. É um efeito semelhante ao produzido por drogas antidepressivas.

— O exercício aumenta tanto a expressão gênica quanto a proteína do BDNF. Essa substância é extremamente importante, ela estimula a plasticidade dos neurônios. Isto é, a capacidade de lembrar e aprender coisas, por exemplo — explica Clarissa.

Em animais, quatro semanas após o início do treinamento aeróbico já é observado desenvolvimento de neurônios.

— Em seres humanos, esse efeito parece levar de três meses a seis meses. É muito animador, porque os exercícios não têm efeitos colaterais e proporcionam uma série de benefícios à saúde — diz Clarissa.

Ela destaca que o exercício atua também sobre a perda de memória associada ao envelhecimento:

— Não só ele previne, quanto ajuda a reverter. Em animais está comprovada a ação benéfica em doenças como Parkinson e Alzheimer. Em seres humanos há importantes indícios e novos estudos prometem trazer boas novidades.

Ela lembra que o uso de exercícios como tratamento da depressão já é uma forte tendência, pois a atividade física de moderada a intensa libera neurotransmissores importantes, como a dopamina.

Uma pesquisa publicada ontem na revista científica “PLOS Biology” apresenta ainda mais provas da força do exercício no cérebro. Pesquisadores do The Jackson Laboratory, no Maine, EUA, viram que correr regularmente ajuda a reduzir mudanças na estrutura do cérebro relacionadas ao envelhecimento. Essas alterações provocam inflamações, que podem levar à demência na velhice.

Gareth Howell, principal autor, diz no artigo que o exercício se firma como potente aliado contra o envelhecimento do cérebro, mas destaca que a atividade física precisa ser regular, de moderada a intensa, e por toda a vida.

Fonte: O Globo