Literatura em Foco

com George dos Santos Pacheco

Como assistir a um filme na TV

Parece tarefa fácil, mas não é não. Quando eu era garoto, era mais difícil ainda, é bem verdade. Tínhamos um único aparelho, um caixote pesadíssimo, com partes de madeira, em preto e branco (em que se colocavam telas coloridas por cima), que sintonizavam – quando sintonizavam – apenas quatro canais. De vez em quando o pai subia na laje e virava a antena “espinha de peixe” para melhorar a imagem: “Tá bom agora?”, gritava lá de cima; “Tá bom!” / “Tá ruim de novo!”, a gente respondia. Voltemos ao futuro. Hoje, a minha TV tem uma série de canais, mas é praticamente monopolizada por programas infantis. Mal consigo assistir a um...

Ensaio sobre a juventude

Sorte a minha ter ingressado em uma das instituições mais tradicionais de Nova Friburgo. Em 2017, a Academia Friburguense de Letras completa 70 anos de fomento à Literatura, promovendo e difundindo a arte e cultura nestas terras altas. Tomemos aqui o conceito etimológico do termo "tradicional". Tradição vem do latim traditio, tradere, que significa "entregar", "passar adiante", ou seja, aquilo que é transmitido de geração em geração. Na academia, as idades variam na faixa dos 30 aos 80 anos, assim, são diversas gerações que convivem harmoniosamente, trocando experiências de vida e literárias, e o enriquecimento e amadurecimento pessoal é preciosíssimo. Em uma...

Literatura Urbana

O que é a Literatura? Onde vive? Do que se alimenta? Essas e outras respostas na sexta-feira, no G* Repórter. Meus amigos devem achar que sou um tanto maluco. Vá lá, talvez o escritor seja um tipo de patologia psicológica. O fato é que eu vejo literatura em todo lugar. Sim, em todo lugar. Em paredes, muros, paralamas de caminhão... Isso mesmo! Ou você acha que a literatura está só nas grandes editoras, cara pálida? Sinto desapontá-lo, mas embora tentem fazer acreditarmos nisso, não. A Literatura é tão variada em gêneros e plataformas que seria no mínimo injusto desconsiderá-las. Veja o caso das poesias de rua, essa literatura urbana pichada nos muros com a...

A Máscara

Dizem que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval. Há também quem diga que, tudo acaba em Carnaval, numa expressão similar ao “acabar em pizza”. Não posso discordar nem de uma, tampouco da outra. Contudo, para quem costuma defender a brasilidade das coisas feito o Policarpo Quaresma, o Carnaval nunca foi brasileiro e remonta à Antiguidade. A palavra deriva do latim carnis levale que significa retirar a carne (e não Festa da Carne, como é comumente descrito) que faz referência com o jejum que deveria ser realizado durante a quaresma e também com o controle dos prazeres mundanos. No Brasil, a festa surgiu no período colonial, com a adaptação de celebrações...

A prisão não são as grades

Não é apenas o sistema prisional, a economia, a política brasileira que está em crise. Passamos por uma crise de valores. Voltamos à Idade Média? Cadeia não é calabouço pro indivíduo sofrer até morrer. Se você pensa assim, se você deseja que as pessoas morram, independente do que ela fez, tem alguma coisa errada. A solução, cara pálida, não é prender mais gente, não é matar mais "bandido", não é construir mais presídios. A solução é evitar que as pessoas se marginalizem. E isso envolve um Estado mais eficiente. Daí muitos vão dizer “Ah, Pacheco, mas você está dizendo isso...

Domingo eu vou pra praia

O sol está de rachar. E não é força de expressão não: segundo especialistas, desde 1943 não faz um calorão desses. Em São Paulo, por exemplo, o nível dos reservatórios está tão baixo que em alguns já se pode avistar o fundo rachado feito o solo do sertão nordesti-no. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) está, inclusive, oferecendo um desconto de 30% para quem economizar água.Onde vai parar esse calor? É quase insuportável sentir o sol na pele, em pleno às três horas da tarde. E se em casa também estou suando em bicas, a solução pode ser tomar um banho de mar. Está decidido:...

Você SA

Como assim já é Natal? Não se assuste, caro leitor. Se, na mais remota hipótese, você ainda não percebeu, falta uma semana para as festas natalinas. Repito: como assim? Esses dias estávamos comemorando o feriado de Carnaval, e também o da Páscoa – aguardando ansiosamente o fim de semana da Black Friday para gastar o que não temos... E “então é Natal”... (com o sotaque inconfundível da Simone). Passa rápido mesmo. E talvez seja por tantos compromissos que assumimos ao longo de nossas vidas e cada vez mais. Vivemos em nossa era como um navegador de internet cheio de abas abertas (olhou para os sites abertos agora, não é?). Fazemos muito mais coisas (ao mesmo...

O Grande Mistério

Certa manhã, a cidade acordou com um grande mistério: as pessoas estavam desaparecendo. Não eram uma, ou duas, mas várias. Primeiro foram os motoristas de ônibus. Todos, todos eles. Foi uma confusão daquelas, mas ninguém se importou muito, afinal, dava para ir a pé para o trabalho, de bicicleta, ou de táxi, ou em seus próprios carros. Então sumiram os professores públicos. O que estava acontecendo, enfim? Também os pro-fessores? Mas outra vez, pouco se importaram, há gente que paga por esse serviço, então, que diferença faria se os professores públicos sumissem? Em algum momento teriam de aparecer, ora bolas, fosse na Copa do Mundo ou nas...

O próximo candidato

Ajeitei-me na cadeira e organizei os papéis sobre a mesa. Com o mouse, percorri a tela do computador, escolhi a pasta adequada e cliquei na ficha editável, para digitar os dados fornecidos. Eram dados simples, mas suficientes para fazer a seleção necessária. Pausei a música no aplicativo de mídia e depois, retirando o telefone do gancho, fiz contato com a secretária. – Pode pedir para que o candidato entre, por favor.– Ok. – respondeu-me secamente.Logo em seguida o homem entrou, pedindo licença e fechando a porta logo atrás de si. Usava um terno simples, mas bem cortado e seus cabelos estavam penteados com gel. Sorria um tanto sem graça, mas o sorriso parecia forçado para parecer...

Contatos Imediatos de Quinto Grau

A gente recebia o pagamento sempre na primeira sexta-feira do mês, em cash, na mão. Saía do trabalho, de banho tomado, bolsa a tiracolo, para o escritório do patrão. Recebíamos a grana, assinávamos um recibo e girando nos calcanhares, seguíamos para o bar do Balboa – o cara tinha os olhos caídos e a boca torta – beber cerveja e jogar sinuca e conversa fora. E é claro, em bar sempre tem uma garota ou outra que bebe junto com a rapaziada, quanto mais em dia de pagamento. Minha mulher nunca gostou que eu jogasse sinuca no Balboa nos dias de pagamento, é evidente que ela desconfiava de minhas puladas de cerca: mexia em meu celular, vasculhava em meus bolsos, fazia a mesma pergunta várias vezes...

Enquanto isso

Cheguei à consulta cerca de meia hora adiantado. Apresentei-me à atendente, entreguei documentos e preenchi formulários, timbrados com o brasão da instituição. Havia apenas eu na sala de espera, aquele atendimento era muito concorrido, mas eles cuidavam para os horários nunca baterem e consequentemente os clientes não se cruzarem nos corredores. Sigilo total, era o que dizia o cartãozinho que chegou até mim por um amigo.Depois de toda burocracia, fiquei sentado aguardando, estalando os dedos por nervosismo. A sala era ampla e completamente branca, a não ser por alguns detalhes prateados em moveis. As paredes, o teto, o piso em porcelanato, o grande tapete felpudo, o sofá em courvin, a mesa da...

A filosofia do erro

Não é segredo para ninguém que o trânsito de nossas cidades a cada dia se torna um caos imperscrutável. E a culpa, meus senhores... bem, de quem é a culpa? Certa feita estava eu no centro da cidade com a minha família, atravessando a avenida principal, em que diversos supermercados, lojas e bancos estão instalados – e por isso mesmo é uma via muito movimentada – em que transitam ônibus, caminhões e carros de passeio. Nessa rua – ah, se essa rua, se essa rua fosse minha... – os carros param em vagas de farmácia (mesmo que o destino não seja ela), ou em fila dupla, o que é pior ainda. E nesse fatídico dia, minha esposa precisava ir a uma determinada loja, e eu...

O mesmo sabor e qualidade

Karl Marx deve estar se contorcendo na tumba. O intelectual e revolucionário alemão ficou conhecido por suas críticas ao Capitalismo, e influenciou diversas áreas, especialmente a Filosofia, Geografia, História, Direito, Sociologia, e até Literatura. Se-gundo Marx, no processo de produção capitalista, o homem se aliena, tornando-se sim-plesmente uma peça da engrenagem produtiva, e a principal consequência disso é que o trabalhador não se reconhece no produto que fez, perdendo sua identidade enquanto sujeito. Entretanto, mesmo vivendo individualmente essa dominação, enquanto inte-grante de uma classe social, ele poderia tomar consciência dessa situação de opressão e,...

O voo do marreco

Quem nunca sonhou em voar? Não voar como Dumont e os irmãos Wright sonharam, mas levantar voo por si mesmo, como um pássaro, navegando pelo céu impunemente, sem compromisso ou responsabilidade como Ícaro. Coisa maravilhosa é sonhar! Ingressar nesse mundo fantástico onde tudo é possível, onde o descabido passa despercebido, é comum,é normal, é banal. Eu já passei esta experiência por diversas vezes, mas… é estranho. Em meu caso, eu sempre caminhava pelas calçadas do centro da minha cidade, em meio a tantos outros que se acotovelavam, apressados com seus compromissos, indo e voltando, alienados, cheios de sacolas nas mãos ou dedilhando smartphones. Em dado momento,...

A conta, por favor

Pedi um pingado e um pão com manteiga, como sempre, naquela padaria no centro de Friburgo. Faz tempo que não lancho salgadinhos fritos; com 34 anos, meu metabolismo desacelerou e minha barriga está cada vez mais chegando na minha frente. É verdade que esse tipo de lanche rápido (ou fast food, como preferirem) estão espalhados por toda a cidade, mas não acredito que isso seja para facilitar a vida dos transeuntes, o negócio é que isso vende pra caceta, não estão nem aí se isso vai entupi-lo de carboidratos e gorduras saturadas, insaturadas e coisa e tal. O negócio é ganhar dinheiro. Mas que o cheiro da fritura seduz, ah, isso seduz. Ignorei a duras penas, segui para a padaria e pedi o...

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás. Então, no verão de 1998, um tio – que era sócio de um clube na cidade – teve a brilhante ideia de levar minha família à piscina do dito cujo. Havia uma espécie de comemoração, e um amigo dele animava a festa tocando um teclado. Foi um evento bacana. Eu, mesmo medroso – e sem saber nadar...